Creme dental com hidroxiapatita e com flúor: comparativo de composição
Se você está escolhendo entre um creme dental com hidroxiapatita e um com flúor, a resposta curta é esta: os dois agem sobre o mesmo mineral do dente, por caminhos diferentes, e um ensaio clínico randomizado publicado em 2019 não encontrou diferença estatisticamente significativa entre eles na progressão de cárie.
O que é a hidroxiapatita
Hidroxiapatita é um mineral de cálcio e fosfato, de fórmula Ca10(PO4)6(OH)2. É o mesmo composto que forma a maior parte do esmalte dental humano. Em creme dental ela entra em forma sintética, produzida em laboratório, e o termo técnico para essa origem é hidroxiapatita biomimética. Na lista de ingredientes (INCI) ela aparece como Hydroxyapatite.
O que é o flúor do creme dental
O que os cremes dentais convencionais trazem não é flúor elementar, e sim um sal de fluoreto. Os mais comuns são o fluoreto de sódio (Sodium Fluoride) e o monofluorfosfato de sódio (Sodium Monofluorophosphate). A concentração vem declarada em ppm, e no Brasil os produtos de venda livre ficam tipicamente entre 1.000 e 1.500 ppm.
A diferença de mecanismo
| Hidroxiapatita | Fluoreto | |
|---|---|---|
| O que é | Mineral de cálcio e fosfato, o mesmo do esmalte | Sal de flúor |
| Como aparece no INCI | Hydroxyapatite | Sodium Fluoride ou Sodium Monofluorophosphate |
| Como age, em resumo | Deposita partículas do próprio mineral do esmalte sobre a superfície do dente | Reage com o mineral do esmalte formando fluorapatita, mais resistente ao ácido |
| Declaração em ppm no rótulo | Não se aplica | Obrigatória |
O que o ensaio clínico mediu
O estudo mais citado na comparação direta entre os dois é um ensaio randomizado, controlado, de não inferioridade, com 150 pacientes ortodônticos de alta atividade de cárie, acompanhados por 168 dias após a colocação dos bracketes. Um grupo usou creme dental de hidroxiapatita microcristalina sem flúor, o outro usou creme dental com 1.400 ppm de fluoreto.
O desfecho primário foi o aparecimento de lesões com ICDAS código 1 ou maior nas superfícies vestibulares dos dentes 15 a 25.
Resultado: houve aumento de cárie de esmalte em 56,8% (por intenção de tratar) e 54,7% (por protocolo) no grupo da hidroxiapatita, contra 60,9% e 61,6% no grupo do fluoreto. O teste de não inferioridade não encontrou diferença significativa entre os grupos. Também não houve diferença significativa nos desfechos secundários de índice de placa e índice gengival.
Conclusão dos autores: em pacientes de alta atividade de cárie, o efeito do uso regular de um dentifrício de hidroxiapatita microcristalina sobre a progressão de cárie não é significativamente diferente do uso de um creme dental com 1.400 ppm de fluoreto.
Estudo na íntegra: Impact of a non-fluoridated microcrystalline hydroxyapatite dentifrice on enamel caries progression in highly caries-susceptible orthodontic patients
Vale registrar o que o estudo não diz. Ele não afirma que a hidroxiapatita é superior ao fluoreto. Ele testa não inferioridade, que é uma pergunta diferente, e o resultado é a ausência de diferença significativa entre os dois. É um estudo, com um perfil específico de paciente e seis meses de acompanhamento.
Os outros ensaios de não inferioridade
O ensaio acima não está sozinho. Outros dois ensaios clínicos e duas revisões sistemáticas testaram a mesma pergunta em perfis diferentes de paciente.
Adultos, 18 meses. Paszynska e colaboradores publicaram em 2023, na Frontiers in Public Health, um ensaio randomizado duplo-cego que comparou creme dental sem flúor com hidroxiapatita a creme dental com 1.450 ppm de fluoreto de sódio, em adultos de 18 a 45 anos. Na análise por protocolo, 89,3% dos participantes do grupo da hidroxiapatita e 87,4% do grupo do flúor não tiveram aumento no índice de superfícies cariadas, perdidas e restauradas. A não inferioridade foi demonstrada dentro da margem previamente definida. Ver o estudo.
Crianças, 1 ano. Paszynska e colaboradores publicaram em 2021, na Scientific Reports, um ensaio de um ano com 207 crianças na análise por intenção de tratar, sobre cárie na primeira infância. A conclusão dos autores foi que o uso diário do creme dental com hidroxiapatita microcristalina não foi inferior ao creme dental fluoretado quanto à progressão de cárie na dentição decídua. Ver o estudo.
As sínteses. A revisão sistemática com meta-análise de Pawinska e colaboradores, publicada no Journal of Dentistry em 2024, recuperou 18 estudos e incluiu 5 ensaios clínicos e 8 estudos in situ na meta-análise. Em 2025, no mesmo periódico, uma revisão conduzida por um grupo independente (Chatzidimitriou e colaboradores) analisou cremes dentais de hidroxiapatita sem flúor e encontrou razão de risco de 0,98 em relação aos fluoretados (p = 0,61; IC 95% 0,85 a 1,12), ou seja, sem diferença estatisticamente significativa.
Sensibilidade. Para hipersensibilidade dentinária a referência é outra: a revisão sistemática com meta-análise de Limeback, Enax e Meyer, publicada em Biomimetics em 2023, concluiu que a hidroxiapatita é segura e efetiva na redução do sintoma, atribuída à obstrução dos túbulos dentinários expostos. Ver a revisão.
O que essa evidência ainda não resolve
Se o texto parasse no parágrafo anterior, seria propaganda. A base de evidência da hidroxiapatita é jovem e pequena: a revisão de 2025 partiu de 68 estudos identificados e considerou apenas 4 elegíveis para análise. O flúor, para efeito de comparação, acumula décadas de estudos, incluindo dados populacionais em escala de cidade.
Em 2025, um comentário publicado em Evidence-Based Dentistry por Gugnani e Gugnani discutiu exatamente se a base atual já é suficiente para uma recomendação ampla. A questão segue em debate na comunidade científica. Ver o comentário.
A leitura defensável hoje é esta: a hidroxiapatita é uma alternativa com evidência de não inferioridade em desfechos clínicos relevantes, avaliada em populações diversas, e não uma substituição comprovada em todos os cenários e para todos os perfis de risco.
O que a legislação brasileira diz
No Brasil, creme dental é produto de higiene pessoal e se enquadra como dentifrício. A norma vigente é a RDC 907/2024, que revogou a RDC 752/2022 em setembro de 2024.
Nenhum creme dental de venda livre, com ou sem flúor, recebe registro individual da Anvisa. O que existe é notificação do produto e Autorização de Funcionamento de Empresa (AFE) da fábrica. Por isso a expressão correta é produto legalizado, e não produto aprovado ou registrado pela Anvisa.
Como conferir sozinha
- Procure a lista de ingredientes (INCI) na embalagem ou na página do produto. Se a marca não publica a lista completa, você não tem como saber o que está comprando.
- Procure Hydroxyapatite ou Sodium Fluoride na lista, e veja em que posição aparecem.
- Procure o CNPJ do fabricante e o número da AFE.
- Confira o produto no Consultas Anvisa, em Cosméticos, Produtos Regularizados, buscando pelo CNPJ da empresa.
Sobre o creme dental da Almacura
O Creme Dental Natural Almacura é fabricado pela própria Almacura Compostos Naturais LTDA, CNPJ 33.265.665/0001-86, em fábrica própria em Itajaí, Santa Catarina, com AFE Anvisa 4.04.616-8 e responsável técnico CRF/SC 17527. O produto está notificado sob o processo 25351.154256/2025-43, grupo Dentifrício, com validade até 29/08/2035.
Composição completa: Xanthan Gum, Glycerin, Kaolin, Calcium Carbonate, Xylitol, Mentha Piperita Essential Natural Oil, Sodium Bicarbonate, Sodium Benzoate, Potassium Sorbate, Hydroxyapatite and Colloidal Silver (hidroxiapatita a 10%). Tubo de 70 g, sem flúor e sem corante artificial.
Este é um texto técnico de comparação de composição. Não substitui orientação do seu dentista, e a escolha entre um creme dental com ou sem flúor deve ser conversada com ele, especialmente para crianças e para quem tem alta atividade de cárie.
Para entender o ingrediente antes da comparação: hidroxiapatita, o que é e para que serve nos dentes.
Referências
- Limeback H, Enax J, Meyer F. Biomimetic hydroxyapatite and caries prevention: a systematic review and meta-analysis. Canadian Journal of Dental Hygiene. 2021;55(3):148-159.
- Pawinska M, Paszynska E, Amaechi BT, Meyer F, Enax J, Limeback H. Clinical evidence of caries prevention by hydroxyapatite: an updated systematic review and meta-analysis. Journal of Dentistry. 2024;151:105429. DOI
- Chatzidimitriou K, Theodorou K, Seremidi K, Kloukos D, Gizani S, Papaioannou W. The role of hydroxyapatite-based, fluoride-free toothpastes on the prevention and the remineralization of initial caries lesions: a systematic review and meta-analysis. Journal of Dentistry. 2025;156:105691. DOI
- Paszynska E, et al. Caries-preventing effect of a hydroxyapatite toothpaste in adults: a 18-month double-blinded randomized clinical trial. Frontiers in Public Health. 2023;11:1199728. DOI
- Paszynska E, et al. Impact of a toothpaste with microcrystalline hydroxyapatite on the occurrence of early childhood caries: a 1-year randomized clinical trial. Scientific Reports. 2021;11:2650. DOI
- Limeback H, Enax J, Meyer F. Clinical evidence of biomimetic hydroxyapatite in oral care products for reducing dentin hypersensitivity: an updated systematic review and meta-analysis. Biomimetics. 2023;8(1):23. DOI
- Gugnani N, Gugnani S. Do we have enough evidence to recommend hydroxyapatite toothpaste for preventing dental caries? Evidence-Based Dentistry. 2025. DOI
Conteúdo educativo. Não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento odontológico.
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